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PETCiências entrevista Dra. Taniamara do IFFAR


 

No dia 22 de março de 2022, pelo turno da tarde, a bolsista do Programa de Educação Tutorial (PET) - coletivo PETCiências: Alessandra Konzen, participou da aula inaugural do Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências (PPGEC), Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), Campus Cerro Largo, que contou com a fala da Profa. Dra. Taniamara Vizzotto Chaves, da Iffar. A qual, explanou sobre a temática: “Paulo Freire: Referência para a Educação e Ensino de Ciências”.

Foi uma tarde de muita aprendizagem, em que a professora relatou suas experiências no Ensino de Ciências tendo Paulo Freire como referência, além de ressaltar a dificuldade das escolas superarem o modelo da Educação Bancária e da importância de um ensino mais problematizador, com uma ação dialógica, de colaboração e aprendizagem conjunta.

Na sequência, para darmos continuidade às entrevistas que estavam sendo realizadas com profissionais de diferentes áreas durante a Pandemia da Covid-19 pelo PETCiências, preparamos algumas perguntas para que a Profa. Taniamara nos respondesse, sendo elas em relação a Pandemia, Ensino de Ciências e Paulo Freire, Formação Docente e Relação de Paulo Freire com a Ciência-Tecnologia-Sociedade (CTS), conforme segue:

Alessandra (PETCiências): Qual a aproximação entre sua área de formação e pesquisas com Paulo Freire?

Profa. Taniamara: Sou licenciada em Física, Mestre e Doutora em Educação. Trabalho em um Instituto Federal de Educação (IFE) - IFFarroupilha, Campus São Borja, que tem como visão a Educação Profissional e Tecnológica (EPT) numa perspectiva omnilateral, ou seja, crítica autônoma, emancipadora em que os sujeitos possam se inserir no mundo do trabalho com a perspectiva de saber fazer (do ponto de vista técnico) e também de compreender/refletir sobre a prática desenvolvida. Estes elementos da EPT encontram aproximações na teoria Freireana especialmente na perspectiva de pensar uma educação problematizadora. Ou seja, a minha atuação no ensino, na pesquisa e na extensão, em decorrência da minha formação dentro de uma área científica e tecnológica, necessita ser também problematizadora. Como docente de Física acredito que as ideias de Freire contribuem especialmente no que se refere a problematização e a humanização dos conhecimentos e das relações, também para o diálogo, a escuta e a amorosidade durante a prática pedagógica.

Alessandra (PETCiências): De que formas a Pedagogia de Paulo Freire pode contribuir para o Ensino de Ciências, bem como com a Educação Científica na formação docente?

Profa. Taniamara: Acredito que a pedagogia de Paulo Freire contribui para o ensino de Ciências e para a educação científica à medida que permite refletir sobre as concepções e as práticas desenvolvidas no ensino de Ciências. A educação problematizadora proposta por Freire é um ponto de partida no sentido de pensarmos um ensino de Ciências menos bancário e menos memorístico, que seja realmente problematizador, libertário, que permita falar e ouvir, onde a construção do conhecimento pode se dar a partir das vivências e dos saberes dos estudantes, com conteúdos contextualizados e mais próximos da realidade vivencial dos estudantes. A aposta para o ensino de Ciências na perspectiva Freireana deveria ser a partir da dialogicidade, da humanização dos conhecimentos e das relações entre os sujeitos envolvidos no processo de ensino e aprendizagem (aluno e professor) já que ambos ensinam e aprendem.

Alessandra (PETCiências): Na sua visão, qual a articulação entre a Pedagogia de Paulo Freire com a Ciência-Tecnologia-Sociedade (CTS)?

Profa. Taniamara: Conforme mencionado em nossa fala, o enfoque de Paulo Freire na educação científica se estabelece como campo de ensino e pesquisa, quando salienta aspectos da educação política e não bancária. Ou seja, uma educação que prima pela problematização e pela contextualização dos conhecimentos, pela consideração dos saberes populares presentes no contexto vivencial dos sujeitos que vivem em sociedade. Esta perspectiva é presente na Educação CTS, por meio dos seguintes elementos: “palavras geradoras e investigação temática; educação política e participação pública e educação problematizadora e não-neutralidade da concepção de ciência” (ZAUITH; HAYASHI, 2013, p.268).

Alessandra (PETCiências): Qual a influência de Paulo Freire na educação CTS?

Profa. Taniamara: A problematização, a dialogicidade, a aproximação com os saberes experienciais são categorias presentes em Freire, e que permitem embasar a chamada educação problematizadora também proposta em Freire que é operacionalizada por meio da investigação temática e os temas geradores. Compreende-se que essas categorias embasam também a educação CTS, na perspectiva dos conhecimentos contextualizados e apropriados de forma crítica, do trabalho interdisciplinar e do papel do professor como mediador e problematizador no contexto da educação CTS.

Alessandra (PETCiências): Como se dá a Amorosidade de Paulo Freire na educação?

Profa. Taniamara: A amorosidade é uma categoria presente em Freire que amplia a capacidade de humanização das relações entre os sujeitos envolvidos no processo de ensino e de aprendizagem. Permite compreender e aceitar o fato de que o ato de ensinar e de aprender não é algo isolado, mecânico, ou seja, está impregnado do sujeito, suas vivências, experiências, contradições, valores, necessidades, etc. A amorosidade permite olhar o outro como sujeito subjetivo que é, ou seja, que necessita de respeito e de empatia, já que possui saberes próprios, e aprende ao mesmo tempo que ensina.

Alessandra (PETCiências): O que podemos levar de Paulo Freire com a Pandemia iniciada em 2019, em que todos e todas nós tivemos que adequar a metodologia de ensino para o ensino remoto?

Profa. Taniamara: O ensino remoto nos trouxe uma nova modalidade de educação formal nunca antes acessada, que foi em síntese marcada por dois aspectos, a saber: 1. mediação entre professor e aluno pela máquina (computador ou celular); 2. ampliação do trabalho mais individualizado e menos coletivo (cada aluno fez da sua casa a sua escola, com momentos síncronos e assíncronos, onde a ajuda da família tornou-se fundamental). Os resultados observados foram que dentro deste contexto, tanto professores quanto alunos necessitaram se adaptar e se adequar a esta nova realidade, aprender a lidar e a mexer com as novas tecnologias, aprender a dialogar por meio da máquina adequando as suas metodologias à tecnologia. Os alunos tiveram de adquirir certa “autonomia” para os estudos e isso implicou a participação da família apoiando os mesmos, muito mais que os colegas e os professores. Muitos estudantes não tiveram acesso às tecnologias e tão pouco apoio das famílias, por isso, ficaram excluídos do processo de ensino e aprendizagem a ponto de abandonar a escola.

Freire nos ajuda a pensar sobre a importância da dialogicidade, da escuta e da amorosidade, categorias que necessitaram ser desenvolvidas ou aprofundadas para que o professor pudesse conversar com o aluno em função dos diferentes meios e situações vivenciadas. Também que o professor deve estar em constante aprendizagem (em qualquer tempo e espaço), que os conteúdos e as metodologias devem se modificar e se adaptar conforme a realidade vivencial do aluno. Finalmente que a escola não está alheia à sociedade, nem tão pouco os sujeitos que a frequentam, ou seja, que as questões sociais, culturais, econômicas fazem parte da vida dos sujeitos e elas problematizam a existência e as necessidades que perpassam o espaço escolar.

Registros da aula inaugural com a fala da Profa. Taniamara






Socialização de experiências








Contribuição: PETiana Alessandra Nilles Konzen - PETCiências

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